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Opinião: a guerra contra o AI Slop

  • Martina
  • 28 agosto 2025, quinta-feira
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Mão robótica branca segura objeto rosa triangular contra fundo verde escuro.

Em um artigo anterior, falamos sobre as mudanças recentes que o YouTube implementou em sua política de monetização para identificar e lidar com conteúdos artificiais e repetitivos gerados por IA, também conhecidos como “AI slop”. O YouTube é apenas uma das várias plataformas que vêm atualizando suas diretrizes com esse mesmo objetivo. Mas, afinal, o que é AI slop no contexto de conteúdos visuais e música? E por que esse termo virou um dos assuntos mais debatidos na internet nos últimos tempos? Vamos entender juntos.

A explosão de conteúdos gerados por IA, também chamada de AI slop

Nos últimos meses, um fenômeno chamado AI slop tem se espalhado pelas redes sociais. O termo AI slop refere-se ao conteúdo de baixa qualidade produzido em massa por IA e que tem saturado as plataformas digitais. Esses materiais costumam ser banais e padronizados, muitas vezes imprecisos, com pouca originalidade e baixo valor artístico. Outra característica comum desse tipo de produção é ser criada com esforço mínimo e publicada em volumes desproporcionais.

O AI slop pode assumir praticamente qualquer forma, tanto na estética quanto nos temas. Pode ser praticamente qualquer coisa: imagens apelativas que tentam provocar alegria, nostalgia ou repulsa, notícias de fontes duvidosas, propagandas mal executadas e vídeos estranhos, supostamente divertidos, que surgem no seu feed.

Temos certeza de que a maioria de vocês já viu as animações de animais claramente geradas por IA, o conteúdo "em qual cama você dormiria", os vídeos irritantemente bizarros de dança da série wandinha ou as infinitas variações de fotos com Jesus em todos os lugares. E não vamos nos esquecer de Tralalero Tralala, Tung Tung Tung Sahur e outros vídeos do chamado gênero brainrot italiano, memes surrealistas gerados por IA usando qualquer coisa que você possa imaginar com nomes pseudo-italianos.

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Como você pode imaginar, o termo tem uma conotação negativa, semelhante a "spam", e geralmente é visto como lixo digital que polui a Internet, principalmente as redes sociais e os mecanismos de busca. A imprensa começou a noticiar o avanço de spam gerado por IA inundando o TikTok e, principalmente, o Facebook, onde publicações com alto engajamento garantiam taxas de publicidade mais altas e geravam mais receita para os criadores.

Pouco tempo depois, o conteúdo de IA produzido em massa tornou-se comum em outras plataformas de mídia social, como YouTube, Instagram e Pinterest. Em todas elas, o objetivo era o mesmo: gerar engajamento, viralizar e monetizar esse alcance.

IA slop na música

Com o avanço da IA, o slop deixou de se limitar a textos e conteúdos visuais, e começou a aparecer na música. Na verdade, a música gerada por IA está se tornando cada vez mais proeminente em plataformas como Spotify, Apple Music e outras. À medida que a tecnologia melhora, também fica mais difícil distinguir entre uma faixa autêntica e uma criada com IA. É bem possível que você se depare com uma música, talvez a próxima que o algoritmo tocar, sem sequer imaginar que ela foi gerada por IA.

Recentemente, uma banda chamada The Velvet Sundown, que alega estar "salvando o rock moderno" em sua biografia no Instagram, ganhou atenção nas plataformas de streaming. Sua música Dust on the Wind, lançada em 5 de junho de 2025, acumulou mais de 2,5 milhões de execuções somente no Spotify. No momento da publicação deste artigo, a banda tem quase 600 mil ouvintes mensais e, segundo relatos, há pouco tempo esse número teria ultrapassado a marca de um milhão. E tem mais, em um intervalo de apenas um mês e meio, a banda lançou três álbuns completos. Como isso é possível? A banda é inteiramente gerada por IA: nome, história, integrantes, identidade visual, imagens promocionais e, principalmente, a música.

No início, eles negaram as acusações graves de que teriam usado IA para criar, bem, absolutamente tudo. Mais tarde, a pessoa por trás do “projeto”, sob o pseudônimo Andrew Frelon, admitiu de maneira bastante caótica que a banda é totalmente gerada por IA. Primeiro, ele afirmou ser apenas um troll que administrava a conta falsa da banda no X. Depois confessou que usava o Suno, um conhecido programa de criação musical por IA, para compor as músicas.

Mais tarde, a biografia da banda no Spotify foi atualizada para refletir sua verdadeira natureza, descrevendo-a como “um projeto musical sintético, guiado por direção criativa humana e composto, interpretado e visualizado com o uso de inteligência artificial”.

Embora ainda existam poucos casos de bandas ou artistas 100% gerados por IA que tenham atraído tanta atenção e cobertura quanto o Velvet Sundown, o exemplo deixa claro que há uma tendência em curso na música, com tudo para ganhar força nos próximos anos.

Em julho de 2025, a revista estadunidense Wired publicou uma reportagem sobre AI slop na música, destacando artistas e faixas que usam descaradamente essa tecnologia. Alguns dos mencionados no texto foram BannedVinylCollection, perfil do Spotify que lança músicas com temas explícitos e eróticos, Nick Hustles, conhecido por sua música I Caught Santa Clause Sniffing Cocaine, e Vinih Pray, cuja música A Million Colours obteve quase 1,5 milhão de execuções.

O que mais nos chamou a atenção no artigo foi a história de um músico e editor, Andy Cush, que certa vez ouviu uma música instrumental tocando em um parque em Nova York e ficou tão cativado por ela que se aproximou da pessoa que a tocava em um aparelho de som para perguntar o que era. Ele ficou particularmente impressionado com a proficiência e as habilidades do guitarrista. Mais tarde, ele descobriu que a música era gerada por IA. "Foi uma experiência estranha e me causou uma espécie de crise", explicou Cush. Ele acrescentou que aquilo o fez perceber que reconhecer músicas feitas com IA talvez seja mais difícil do que imaginava.

Parece que, embora já exista a consciência de que a inteligência artificial fará parte da música no futuro, a indústria ainda não está preparada para o verdadeiro impacto da IA generativa no setor.

Em um vídeo sobre AI slop na música lançado logo após a confirmação de que o primeiro álbum do Velvet Sundown foi 100% gerado por IA, o criador Nick Cesarz disse que acreditava firmemente que a banda queria apenas ganhar alguma notoriedade antes de lançar um segundo álbum "real", mostrando que eles eram uma banda humana. Mas era bom demais para ser verdade. Talvez a realidade seja que o AI slop só existe, na música ou em outros conteúdos audiovisuais, por ser uma forma fácil de criar conteúdo para monetização.

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Como o público responde ao AI Slop?

Como acontece com quase todo tema envolvendo IA generativa, o público, assim como especialistas e profissionais do setor, tem reagido com criticismo ao AI slop. A percepção dominante é a de que esse tipo de produção polui a internet e piora a experiência nas plataformas. Para Nesrine Malik, colunista do The Guardian, o slop estaria “distorcendo a realidade e nos empurrando cada vez mais para mundos subjetivos".

Os fãs e artistas da música parecem ser ainda mais resistentes à ideia. Enquanto alguns chamam a música de AI slop de barata e superficial, outros vão além, dizendo que é um "tapa na cara da integridade artística". Uma publicação no perfil do Velvet Sundown no Instagram mostra um comentário que diz: "O silêncio é melhor do que a música de AI".

"Criações de IA generativa não são arte. A arte é o produto de influências filtradas pelas experiências, gostos e habilidades de uma mente consciente. O conteúdo de IA nada mais é do que influências filtradas por um algoritmo. Embora as ferramentas de IA possam ser úteis no processo (...), se a maior parte das decisões criativas não for tomada por uma mente consciente, será apenas uma porcaria", diz um usuário do Reddit.

Mas a discussão sobre o AI slop não fica apenas na qualidade. A rentabilidade é uma questão central. Como vimos anteriormente neste artigo, esse tipo de conteúdo tem como objetivo gerar engajamento e aumentar os lucros.

Pesquisas mostram que usar a IA para produzir conteúdo de baixa qualidade e distribuir em massa se tornou um empreendimento lucrativo. A IA barateia a produção de conteúdo e permite publicar em grande volume, acompanhando a lógica dos algoritmos das plataformas, que favorecem perfis que publicam com frequência e mantêm o fluxo constante de conteúdo novo e diverso.

Embora o perfil de quem produz AI slop seja variado, muitos são estudantes, pessoas em situação de desemprego, trabalhadores domésticos e indivíduos em contextos de vulnerabilidade econômica. Para eles, criar conteúdo com IA é uma forma de garantir uma renda extra, encontrar uma solução para o desemprego ou uma alternativa de trabalho informal.

As redes sociais contra o lixo gerado por IA

Como mencionado no início deste artigo, o YouTube ganhou as manchetes recentemente ao introduzir novas atualizações em suas políticas de monetização. O objetivo? Detectar e combater a enxurrada de conteúdo gerado por IA de qualidade duvidosa. E o YouTube não é a única plataforma que está fazendo isso. As plataformas sociais em geral decidiram tomar medidas semelhantes para combater o AI slop.

Para os criadores, pode ser uma forma fácil de gerar receita. Já para plataformas como YouTube, Meta ou TikTok, trata-se de uma prática que, segundo elas, explora brechas em seus sistemas de monetização. As atualizações de política implementadas por essas plataformas não afetam apenas quem produz conteúdo visual, mas também têm implicações para músicos, influenciando como suas faixas são distribuídas e monetizadas nesses espaços.

Por exemplo, tanto o TikTok quanto a Meta atualizaram recentemente suas políticas de entrega de áudio, separando suas bibliotecas de áudio das impressões digitais de acústicas (fingerprint rights). Essa mudança busca evitar identificações incorretas causadas por tecnologias de digitalização sensíveis demais. Antes, para que uma música utilizada em um vídeo fosse monetizada, era necessário que ela tivesse a impressão digital acústica ativa. As plataformas TikTok e Meta usavam essa tecnologia para identificar vídeos em que uma música aparecia organicamente como trilha de fundo, sem ter sido selecionada diretamente nas suas bibliotecas. Tanto esse uso orgânico quanto o uso via biblioteca podiam ser monetizados.

Em outras palavras, as faixas distribuídas para TikTok, Facebook e Instagram se qualificariam automaticamente para uso na biblioteca e para monetização por meio da tecnologia de impressão digital. Com a exigência de direitos vinculados à impressão digital acústica removida para simplificar o processo, músicas usadas como trilha de fundo deixaram de ser monetizadas automaticamente.

Conversando com o gerente de artistas e relações da iMusician, descobrimos que os artistas que desejam monetizar suas faixas como música de fundo no TikTok, Instagram ou Facebook devem atender a critérios rigorosos de elegibilidade. Esses requisitos podem variar entre os distribuidores, dependendo do gênero ou da propriedade dos direitos. Com base em nosso trabalho diário de suporte a músicos independentes na Europa, América do Norte e América Latina, vimos que as faixas são frequentemente recusadas se :

  • Contiverem obras de domínio público ou áudio com elementos de domínio público,

  • Incluírem sons muito genéricos/comuns (aplausos, ruído branco, loops simples de bateria, toques de celular, ruídos de animais, palavras faladas, diálogos de filmes/TV não musicados etc.),

  • Usarem batidas ou amostras não exclusivas de pacotes de amostras,

  • Forem mixagens de DJ, compilações ou álbuns completos,

  • Forem faixas licenciadas em uma base não exclusiva (por exemplo, bibliotecas de produção, licenças de trilha sonora),

  • Assemelharem-se a "soundalikes" ou versões de karaokê,

  • Se enquadrarem em determinadas categorias de música clássica, especialmente obras de domínio público,

  • Forem versões ao vivo que sejam quase idênticas às gravações de estúdio,

  • Forem remixes, remasters ou versões derivadas de músicas das quais o artista não controla os direitos,

  • Incluirem áudio em que o uploader não controla todos os direitos para reivindicar 100% da faixa entregue.

Se uma faixa não atender a esses critérios, os pedidos de monetização de músicas usadas como trilha de fundo geralmente são recusados. Como destaca nosso gerente de A&R, a música clássica tem sido o gênero mais afetado: nas plataformas da Meta, o repertório clássico, incluindo algumas obras contemporâneas, acabou sendo impactado além do esperado. As distribuidoras, incluindo a iMusician, estão em contato com a empresa para esclarecer essas regras.

Como as plataformas de streaming respondem ao AI slop?

Em comparação com as redes sociais, as plataformas tradicionais de streaming de música geralmente têm sido tolerantes com a proliferação do AI slop. A Apple Music e o iTunes, por exemplo, não anunciaram publicamente nenhuma restrição importante e, em geral, a maioria das plataformas de streaming continua a distribuir faixas geradas por IA sem obstáculos significativos.

Podemos dizer que o Spotify, em particular, tem adotado uma postura permissiva. Em outras palavras, se as pessoas escutam e a plataforma gera receita, pouco importa como a música foi criada. Embora o serviço supostamente proíba músicas geradas por IA que façam deepfake de artistas reais, ele não conta com um sistema para identificar ou rotular conteúdos criados com IA, nem exige que artistas informem isso no momento do upload.

A Deezer parece ser a mais proativa ao estabelecer limites para o conteúdo gerado por IA. No início de 2025, a plataforma lançou uma ferramenta de detecção de IA inovadora capaz de identificar com precisão conteúdo de áudio sintético, que não apenas sinaliza mas também remove determinados conteúdos. Ela é o único grande serviço de streaming a permitir que os ouvintes bloqueiem ativamente músicas geradas por IA em seu algoritmo de recomendação.

O que essas mudanças significam para os artistas? E quem está se beneficiando delas?

A indústria musical ainda não chegou a um consenso sobre o impacto do conteúdo gerado por IA em larga escala nem sobre como enfrentá-lo. Já nas redes sociais, a direção parece clara: a era da monetização fácil está chegando ao fim. Para os criadores, isso significa mudar seu foco para originalidade, autenticidade e qualidade se quiserem atender aos novos padrões e regras de monetização para continuar faturando com seu conteúdo. Embora a justificativa para essas mudanças seja proteger a criatividade genuína e impedir abusos no sistema, o efeito prático tem sido mais obstáculos para artistas e criadores independentes.

Artistas que antes contavam com uma abordagem mais permissiva das redes sociais agora precisam se adaptar rapidamente às novas regras para continuar aproveitando as oportunidades. Esse processo pode ser ainda mais difícil para quem não tem os recursos necessários.

Com as novas regras, as plataformas saem na frente na disputa contra a proliferação do AI slop. Ao priorizar qualidade e autenticidade, elas também reduzem seus gastos com a monetização de conteúdos oportunistas que exploram brechas no sistema.

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Martina
Martina

Martina é uma jornalista musical e especialista em conteúdo digital, baseada em Berlim. Começou a tocar violino aos seis anos e passou uma década imersa na música clássica. Hoje, escreve sobre tudo relacionado à música, com interesse especial pelas complexidades da indústria musical e das plataformas de streaming, e em formas de promover uma remuneração justa para os artistas.

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