A cultura do cancelamento afeta o consumo de música?
- Martina
- 12 maio 2026, terça-feira
O verbo "cancelar" ganhou um novo significado no vocabulário popular e divide opiniões. Uns defendem a prática do "cancelamento cultural" como forma de responsabilização. Outros a enxergam como perseguição. O fenômeno já atingiu artistas, músicos, políticos e personalidades do entretenimento. Mas ser cancelado afeta de verdade os números de streaming e o interesse pela música de um artista?
Um estudo recente da Cornell University investigou como a cultura do cancelamento afeta os números de reprodução e a visibilidade dos artistas. Mais do que isso, a pesquisa tenta entender por que, em alguns casos, os fãs conseguem separar a obra do artista e, em outros, não.
Cancelamento cultural na música: artistas como símbolos de identidade
Na música, a "cultura do cancelamento" se refere à rejeição coletiva e ao boicote que artistas enfrentam após declarações, comportamentos ou opiniões polêmicas. Hoje, esse processo é em grande parte impulsionado pelas redes sociais.
Esse comportamento coletivo está diretamente associado às crenças e valores éticos das pessoas. O dicionário Merriam-Webster define a prática como uma "forma de expressar desaprovação e exercer pressão social".
Consumir música é, antes de tudo, uma experiência emocional e social. Para muitos fãs, a conexão com um artista se constrói pela identificação. Gostamos da música, mas também queremos acreditar que o artista compartilha nossos valores, nossas emoções e nossas ideologias. De certa forma, o artista pode se tornar um símbolo da nossa identidade.
Não é apenas uma hipótese ou um debate. Pesquisas mostram uma forte correlação entre as músicas que amamos e nossos valores morais, o que faz do gosto musical um espelho de quem somos. Por isso, quando um artista erra, a sensação pode ser de traição, o fim de uma ilusão ou até uma ruptura de identidade.
Nos últimos anos, o cancelamento de figuras públicas virou rotina. Na tentativa de responsabilizar quem tem poder, as pessoas denunciam transgressões de todo tipo, muitas vezes incluindo tweets, posts e declarações antigas que voltam à tona depois de anos esquecidas.
Na música, os casos se acumulam. Kanye West foi amplamente rejeitado por comentários antissemitas e elogios à ideologia nazista, entre outras polêmicas. P. Diddy responde a acusações criminais de tráfico sexual e agressão. Morgan Wallen enfrentou uma crise depois de um insulto racial.
As repercussão da cultura do cancelamento para os artistas
A cultura do cancelamento divide opiniões. Para uns, é uma ferramenta de responsabilização e justiça. Para outros, punição desproporcional e hostilidade.
A prática tem duas faces. De um lado, pode dar voz a grupos marginalizados e responsabilizar quem errou. Do outro, incentivar a mentalidade de manada, sufocar a liberdade de expressão, alimentar a exclusão, prejudicar o bem-estar e deixar marcas duradouras na carreira dos artistas, nem sempre de forma justificada.
É exatamente esse último aspecto que o estudo da Cornell investiga. Muitos argumentam que, nos casos mencionados e em tantos outros, as polêmicas afetaram negativamente a popularidade, as vendas e o número de reproduções dos artistas. Se as pessoas projetam a própria identidade em seus ídolos, a decepção com o comportamento deles deve ter algum impacto. Mas será que é mesmo assim?
Recentemente, o guitarrista e cantor britânico de blues Eric Clapton se apresentou na O2 Arena de Praga como parte de uma extensa turnê internacional. Após o show, um veículo local publicou uma crítica com o título, em tradução livre, "Eric Clapton diz coisas horríveis. Mas como guitarrista, ele é maravilhoso."
O autor, Daniel Konrád, abre o texto dizendo que Clapton colocou seus fãs à prova repetidas vezes. O guitarrista acumula críticas por declarações polêmicas sobre as medidas contra a Covid-19 e conflitos geopolíticos. Ainda assim, reuniu cerca de 15 mil pessoas em Praga, o equivalente a três quartos da capacidade total da arena.
Estudo da Cornell: fãs tendem a separar a polêmica da obra do artista
Então, será que a reação contra Clapton teve algum impacto sobre sua popularidade, números de reprodução ou demanda de shows? A pesquisa da Cornell sugere que não.
O estudo "Separating the Artist from the Art: Social Media Boycotts, Platform Sanctions, and Music Consumption", da professora Jura Liaukonyte e colaboradores, analisou polêmicas de grande repercussão envolvendo R. Kelly, Morgan Wallen, Rammstein e Sean "Diddy" Combs para medir o impacto nos números de reprodução. Os resultados surpreenderam.
Os pesquisadores não encontraram evidências de que a rejeição pública levaria a quedas sustentadas nas reproduções quando as plataformas mantiveram a visibilidade dos artistas. Em muitos casos, o escândalo gerou até aumentos temporários nos números.
As quedas mais expressivas coincidiram com a redução da visibilidade dos artistas pelas próprias plataformas, por meio de mudanças em playlists, recomendações e outras formas de promoção. Um bom exemplo é o caso de R. Kelly, cuja carreira foi praticamente encerrada após sua condenação por crimes de abuso sexual contra menores. Diante das acusações e, mais tarde, das condenações criminais, campanhas como a #MuteRKelly incentivaram ouvintes e empresas a deixar de apoiar sua música.
Muitos atribuíram a queda na popularidade do artista ao abandono dos fãs, mas a maior e mais duradoura redução nas reproduções coincidiu com a decisão do Spotify de remover as músicas de Kelly das playlists oficiais e das recomendações. A medida tornou muito mais difícil encontrar as músicas dele na plataforma. Os pesquisadores estimaram que o artista perdeu aproximadamente entre US$ 3,2 milhões e US$ 4,2 milhões em receita só nos Estados Unidos.
"Nossa pesquisa indica que a queda nas reproduções de R. Kelly foi impulsionada principalmente pela redução da visibilidade após o Spotify remover parte de sua música das playlists e recomendações. Para as músicas que a plataforma manteve nas playlists, não encontramos evidências de queda nas reproduções", disse Liaukonyte.
Diferentemente de Kelly, artistas como Morgan Wallen, Rammstein e Diddy enfrentaram apenas a condenação nas redes sociais e a cobertura negativa na imprensa, sem que as plataformas removessem suas músicas. As reproduções não caíram de forma sustentada. Em alguns casos, os números chegaram a crescer.
Afinal, a cultura do cancelamento muda alguma coisa?
Em última análise, o estudo sugere que os serviços de streaming exercem muito mais influência sobre o que as pessoas escutam do que o boicote nas redes sociais. Quando as plataformas removem artistas dos sistemas de descoberta e recomendação, a música deles simplesmente desaparece da rotina de muitos usuários, porém, quando não tomam nenhuma medida, a polêmica tende a se dissipar e pode até impulsionar temporariamente as reproduções.
Isso coloca em xeque a narrativa popular de que a cultura do cancelamento destrói carreiras e popularidade. Fica a dúvida se ela realmente afeta quem está envolvido em polêmicas, se serve para responsabilizar alguém e, talvez, até se nossas preferências musicais derivam mesmo dos nossos valores, como alguns autores sugerem.
Segundo o estudo, essas questões ainda podem ser verdadeiras, mas não da forma que imaginávamos. Os resultados sugerem que, mesmo quando o público se sente indignado com o comportamento de um artista e o condena publicamente, o vínculo emocional com a música costuma persistir, e o ouvinte acaba dissociando a polêmica da obra.
As campanhas de pressão popular podem influenciar as decisões das empresas, mas raramente mudam comportamentos de escuta por conta própria. Só quando as plataformas interrompem intencionalmente os hábitos dos ouvintes e os mecanismos de descoberta é que uma queda real nas reproduções e na popularidade de um artista se torna perceptível.
Martina é uma jornalista musical e especialista em conteúdo digital, baseada em Berlim. Começou a tocar violino aos seis anos e passou uma década imersa na música clássica. Hoje, escreve sobre tudo relacionado à música, com interesse especial pelas complexidades da indústria musical e das plataformas de streaming, e em formas de promover uma remuneração justa para os artistas.