Tendências da indústria musical para 2026
- Michele
- 20 janeiro 2026, terça-feira
- Indústria musical: perspectivas para 2026
- 1. Música e IA
- 1.1 Plataformas de streaming de música e detecção de IA
- 1.2 O papel da IA na música em 2026
- 1.3 Descoberta e curadoria de música
- 1.4 Dados, direitos autorais e licenças
- 2. A volta de CD's, MP3 Players e mídias não digitais
- 3. Áudio lossless espacial
- 4. Profundidade emocional e gêneros
- 5. Ética e diversificação
- 6. Professionalization ou Hobby
- Considerações finais: o setor musical em 2026
O que a indústria musical reserva para 2026? Neste artigo, reunimos seis tendências e previsões sobre o impacto da inteligência artificial, o avanço do áudio lossless, questões éticas, transformações nos gêneros musicais e as novas maneiras de criar e ouvir música.
Indústria musical: perspectivas para 2026
A indústria musical passou por mais um ano de mudanças, desafios e surpresas. Embora o ritmo de crescimento tenha diminuído em relação aos anos anteriores, o setor continua avançando e se reinventando. Com a chegada de 2026, essa indústria vive um período de ajustes e enfrenta debates cada vez mais intensos sobre inteligência artificial, sustentabilidade, equidade e os caminhos para o futuro da música. O que os artistas podem esperar dos próximos meses e quais tendências devem ganhar força neste novo cenário?
1. Música e IA
No ano passado, a inteligência artificial foi um dos temas mais debatidos no setor. A tecnologia divide opiniões, mas mesmo assim, os dados mostram que a IA já ocupa um grande espaço na produção musical.
Em novembro de 2025, a Deezer já recebia mais de 50 mil faixas totalmente geradas por inteligência artificial diariamente, o que representava cerca de um terço de todas as novas entregas na plataforma. No mesmo período, o Spotify informou ter removido mais de 75 milhões de faixas consideradas spam ou de baixa qualidade ao longo de 12 meses, como parte do reforço nas medidas contra uploads fraudulentos e conteúdo gerado por IA. Diante desses números, é evidente que a inteligência artificial seguirá transformando a indústria musical de diferentes formas e continuará no centro das discussões. O que podemos esperar para 2026?
Plataformas de streaming de música e detecção de IA
Vamos começar pelas plataformas de streaming. A maioria dos serviços aceita músicas geradas por IA, mas também impõe restrições para proteger artistas e ouvintes. O Deezer, por exemplo, exclui músicas inteiramente geradas por IA das recomendações e playlists editoriais, para evitar que ganhem mais visibilidade do que faixas criadas por pessoas reais. Além disso, o serviço aplica um selo identificando esse tipo de conteúdo, o que garante maior transparência.
O Spotify adotou medidas semelhantes no terceiro trimestre de 2025, com políticas mais rígidas contra clonagem e imitação de voz sem autorização, novos filtros para detectar uploads fraudulentos e spam, além de suporte aos padrões de transparência e divulgação da indústria. A proposta era dar aos artistas mais controle sobre como a IA interage com suas obras e, ao mesmo tempo, filtrar conteúdos pouco elaborados e evitar que faixas geradas por IA diluíssem o montante dos royalties.
A transparência é importante para os ouvintes porque a IA está se tornando cada vez mais sofisticada. Estudos e exemplos reais mostram que está ficando mais difícil distinguir faixas geradas dessa forma de músicas feitas por pessoas, mesmo entre quem acredita ter essa habilidade. Uma pesquisa conduzida em 2025 pelo Deezer e pelo Ipsos, por exemplo, revelou que 97% dos participantes não conseguiram identificar corretamente se as faixas apresentadas eram totalmente geradas por IA ou não. A maioria se disse surpresa com os resultados, e mais da metade relatou desconforto com as descobertas.
Um exemplo é a banda criada por IA The Velvet Sundown, que lançou dois álbuns em meados de 2025, com direito a biografia (fictícia) e imagens promocionais. A surpresa foi descobrir que a banda, que muitos acreditavam ser real, era totalmente artificial e ainda assim convincente o suficiente para alcançar mais de um milhão de ouvintes mensais no Spotify. A tendência é que a IA continue evoluindo ao longo do ano. Por isso, é preciso redobrar a atenção para não cair em armadilhas de agentes mal-intencionados.
O papel da IA na música em 2026
O que esperar daqui para frente? Uma coisa é certa: os debates sobre a IA estão longe de terminar. A tendência é que mais artistas adotem a tecnologia como ferramenta criativa, seja para escrever letras, compor melodias e arranjos, ou como recurso de apoio a esses processos. Outros seguirão rejeitando totalmente seu uso e valorizando a arte feita por pessoas.
Enquanto isso, as ferramentas automáticas de mixagem e masterização vão continuar evoluindo, tornando a produção profissional mais acessível. Para profissionais estabelecidos, no entanto, isso pode dificultar a sustentabilidade da carreira. Com a redução das barreiras promovida pela IA, a concorrência tende a crescer, reduzindo a demanda dos estúdios tradicionais e o espaço de produtores e engenheiros de som.
Descoberta e curadoria de música
A IA vem influenciando a forma como descobrimos música. Ferramentas como a extensão do Spotify para o ChatGPT permitem que os ouvintes explorem as faixas por meio de conversas, abrindo caminho para outras formas de conhecer e escutar novos sons. Com o tempo, esses recursos baseados em IA podem personalizar ainda mais o modo como ouvimos música, revelando faixas, artistas e gêneros de nicho que talvez passassem despercebidos.
Ao mesmo tempo, a IA é orientada por dados e tende a repetir padrões com base nos conteúdos que recebe, o que pode reduzir a visibilidade de artistas menores ou em começo de carreira. Por isso, a curadoria humana continua sendo essencial. DJs, curadores e editores de playlists oferecem contexto, revelam músicas fora do circuito popular e criam experiências que a IA, sozinha, ainda não consegue reproduzir. Esse trabalho mantém viva a diversidade de estilos e descobertas.
Dados, direitos autorais e licenças
Já que estamos falando de dados, é importante discutirmos os direitos autorais e as licenças. Com a proliferação da IA, surgiram várias questões sobre o assunto: a tecnologia está sendo treinada com material protegido por direitos autorais sem autorização? Quem é dono de uma música criada por IA? Como dividir os royalties entre criadores humanos e contribuições da IA?
O setor vem explorando maneiras de responder a essas questões. Um exemplo recente é o esforço colaborativo entre o Warner Music Group e a Stability AI com o objetivo de promover o uso responsável da IA na criação de músicas. Ao combinar o foco da WMG na inovação responsável com a experiência da Stability AI em geração de áudio comercialmente segura, a parceria propõe caminhos para lidar com esses desafios e orientar o uso ético da IA.
A discussão sobre IA na música está só começando. Os próximos anos devem definir como artistas, ouvintes e plataformas conseguirão inovar sem abrir mão da originalidade e da integridade artística.
2. A volta de CD's, MP3 Players e mídias não digitais
A próxima previsão aponta para o desgaste do modelo de streaming e das assinaturas. Não é de hoje que as plataformas são alvo de críticas por pagarem pouco aos artistas e aumentarem os preços frequentemente. Agora, elas enfrentam ainda mais resistência por incluírem faixas criadas por IA nas playlists e flexibilizarem as regras de uso da tecnologia.
Outro motivo de frustração para muitos ouvintes é que, mesmo pagando todo mês, eles não são donos das faixas que escutam. O próprio modelo de consumo atual contribui para isso: tudo acontece rápido, ditado por algoritmos e, com frequência, sem envolvimento, como acontece nas redes sociais. Por isso, acreditamos que formatos físicos como CDs, vinis e até fitas cassete podem voltar a ganhar espaço, como uma reação ao consumo acelerado e à natureza intangível do streaming. Mídias não digitais e itens colecionáveis oferecem algo concreto, que pode ser guardado, exibido e considerado como uma propriedade.
Os especialistas concordam. Em uma entrevista ao Hypebot, Romain Boudruche, da We Are Rewind, comenta: “Em 2026, é evidente o retorno dos formatos físicos. O vinil abriu caminho, mas as fitas cassete e os tocadores de CD também voltaram com força e foram resgatados como expressão cultural. Ouvintes mais jovens buscam formas de escutar música que sejam mais táteis e intencionais, diferente do streaming guiado por algoritmo. (...) Há um movimento cultural de desaceleração. As pessoas querem se conectar com a música, longe das playlists passivas. Ouvir fita cassete favorece justamente isso: dedicar tempo para escutar um álbum inteiro, na ordem original, sem pular faixas. Essa mudança comportamental tem influenciado o design dos aparelhos e feito os artistas voltarem a pensar seus álbuns como uma narrativa completa."
Até os clássicos MP3 players voltaram a despertar interesse. Muitos fãs procuram formas de ter suas músicas fora do streaming e de sentir uma relação mais próxima com o que ouvem. Há também uma dimensão sensorial que o digital não oferece: tirar um disco da capa, folhear o encarte ou simplesmente parar para olhar a arte do álbum cria uma conexão que vai além de apertar o play. Formatos físicos resgatam o ritual e a conexão que se perde quando tudo se limita à transmissão de dados.
Além disso, edições limitadas, vinis coloridos e lançamentos combinados, como CDs acompanhados de merchandising e códigos digitais, tem grande potencial de geração de receita. Boudruche concorda: "Colecionadores e fãs valorizam cada vez mais objetos físicos que carregam um significado emocional. As fitas cassete viraram uma porta de entrada acessível para edições limitadas, colaborações entre artistas e lançamentos exclusivos. Esse movimento fortalece o vínculo entre artistas e público e resgata a ideia da música como um objeto pessoal e concreto, não apenas um arquivo digital."
3. Áudio lossless espacial
Outra tendência que vale acompanhar em 2026 é a busca por áudio de maior qualidade. Depois de anos de expectativa, o Spotify finalmente lançou o streaming lossless para assinantes do plano Premium no fim de 2025, permitindo ouvir faixas em qualidade FLAC de até 24-bit/44,1 kHz em mais de 50 países. Isso coloca o Spotify no mesmo patamar de concorrentes como Apple Music, Amazon Music e TIDAL, que oferecem essa opção há mais tempo. Para quem usa equipamentos de qualidade, isso pode ser um incentivo para seguir no streaming ou retomar o uso da plataforma. O áudio espacial segue o mesmo movimento e deve ganhar mais destaque neste ano.
Para quem se importa com fidelidade sonora, o áudio lossless representa um passo na tentativa de recuperar parte da riqueza e dos detalhes que se perde com os formatos comprimidos. Mas, para perceber essa diferença, muitas vezes é preciso usar fones com fio ou caixas de som de maior qualidade, já que o Bluetooth ainda não suporta áudio lossless. Com o desgaste dos modelos por assinatura e as limitações da compressão de áudio, esse tipo de melhoria revela uma busca por maior qualidade de reprodução e mais controle sobre a forma como se ouve música.
4. Profundidade emocional e gêneros
Outra tendência para 2026 é a categorização da música por emoções, não apenas por gêneros. Ao longo de 2025, playlists no Spotify e em outras plataformas passaram a adotar nomes e conceitos baseados em estados de espírito, criando seleções associadas a sentimentos, momentos ou atmosferas específicas, mais do que estilos musicais.
Essa mudança reflete a forma como se consome música hoje: menos baseada em rótulos como pop ou hip hop e mais ligada ao que uma faixa faz sentir. Curiosamente, a IA também tenta explorar esse aspecto emocional. Ela consegue gerar músicas que simulam climas e sentimentos, mas ainda existe algo intangível na sensibilidade humana que o público reconhece. Fãs tendem a se conectar com faixas e artistas que transmitem autenticidade, o que reforça o valor das emoções reais na música.
5. Ética e diversificação
Outra tendência que deve se consolidar em 2026 é a diversificação do streaming, motivada não só por preço ou funcionalidades, mas também por questões éticas. Cada vez mais, artistas e ouvintes consideram quem está por trás das plataformas, para onde vai o dinheiro e a quais setores essas empresas estão ligadas. Isso tem levado artistas a retirarem suas músicas dos serviços e fãs a repensarem suas assinaturas, mesmo que isso signifique mudar de serviço ou dividir o uso entre diferentes plataformas.
Isso reflete uma mudança na relação das pessoas com a indústria musical. A escolha das plataformas de streaming já não é influenciada apenas por praticidade ou tamanho do catálogo, mas também pelos princípios éticos do ouvinte. Para alguns, a transparência e o compromisso com os interesses dos artistas se tornaram fatores de decisão na hora de contratar um serviço. Com isso, o cenário do streaming fica mais fragmentado, com espaço para alternativas e formas mais conscientes de consumir música.
6. Profissionalização ou hobby?
A redução das barreiras de entrada tornou mais fácil começar a fazer música, mas também ampliou a concorrência e trouxe novos desafios. Hoje, há mais criadores do que nunca. As oportunidades são muitas, mas o trabalho com remuneração sustentável segue limitado, especialmente em áreas como produção, mixagem, masterização e composição.
Com isso, a diferença entre quem consegue manter uma carreira de longo prazo e quem abre mão dos objetivos profissionais fica mais nítida. Ao mesmo tempo, o interesse pela música como hobby voltou a crescer e cada vez mais pessoas encaram a criação musical como expressão criativa.
Muitos criadores têm deixado de lado a pressão de transformar todo hobby em fonte de renda e optado por fazer música por prazer. Nem tudo precisa virar profissão; há quem prefira seguir no sentido oposto.
Considerações finais: a indústria musical em 2026
A indústria musical passa por transformações movidas pela tecnologia, pelas mudanças no consumo e pelas novas prioridades de quem cria. Além disso, a IA vem mudando a forma de produzir e descobrir música, gerando novas oportunidades e instigando questionamentos sobre direito autoral, propriedade e originalidade. O streaming ainda é o principal formato, mas o modelo por assinatura, o conteúdo intangível e o consumo automático mostram sinais de saturação e têm levado muitos ouvintes de volta aos formatos físicos e aos itens de coleção.
O aumento no número de criadores facilitou o acesso, mas, ao mesmo tempo, intensificou a concorrência, restringindo ainda mais oportunidades de carreira. Isso criou uma divisão entre quem se profissionaliza e quem faz música como hobby, com muita gente preferindo criar por prazer, sem foco na monetização.
Hoje, o desafio da indústria musical é equilibrar fatores como inovação e autenticidade, acessibilidade e sustentabilidade, a conveniência do digital e o interesse por experiências físicas. Essas tendências sugerem que, em 2026, o mercado será definido não apenas pela tecnologia, mas também pelas escolhas de quem faz e ouve música, e por como eles respondem à evolução do setor.