Opinião: Sienna Rose reacende o debate sobre artistas criados com IA
- Martina
- 09 fevereiro 2026, segunda-feira
Sienna Rose. Uma cantora de neo-soul em ascensão, cuja faixa Into the Blue se tornou viral nas mídias sociais e conseguiu um lugar no Top 50 do Spotify. Poderia ser mais uma das muitas histórias de sucesso... Então, qual é o problema?
Evidências sugerem que Sienna Rose seja uma "artista" gerada por IA, uma entre um número cada vez mais alarmante desses "músicos virtuais". Até onde pode ir a tendência dos artistas de IA? Isso é o que vamos explorar juntos neste artigo.
Velvet Sundown: pioneiros entre as bandas de IA
Não é a primeira vez que a indústria musical se depara com "artistas" gerados por IA. Um dos exemplos mais conhecidos é a banda The Velvet Sundown, que surgiu em junho de 2025. Em apenas algumas semanas, o projeto acumulou mais de 850.000 ouvintes mensais ativos (chegando a 1,4 milhão em um determinado momento), enquanto seu sucesso Dust on the Wind gerou mais de 4 milhões de execuções no Spotify.
Não demorou para que os meios de comunicação noticiassem alegações de que a banda era totalmente gerada por IA e, pouco tempo depois, essas suspeitas foram confirmadas. Se você acessar o perfil do Spotify do The Velvet Sundown agora, verá na seção Sobre que quem está por trás do projeto o chama de "projeto de música sintética guiado por direção criativa humana e composto, dublado e visualizado com a ajuda de inteligência artificial".
Muitos indícios apontavam para a natureza artificial do projeto. O volume incomum de lançamentos em um intervalo muito curto (três álbuns completos em pouco mais de um mês), o crescimento extremamente rápido no número de ouvintes mensais e execuções, e a ausência de presença anterior ao primiero lançamento. As publicações em sua página do Instagram, imagens claramente geradas por IA, acabaram revelando a verdade. Muitos especialistas também argumentaram que a verdadeira natureza da banda é evidente na própria música, especialmente no assobio talvez sutil, mas persistente, ao fundo. Esse chamado "assobio revelador" que percorre todo o áudio é comumente associado à música criada usando plataformas de IA generativas, como Udio e Suno.
Quem é Sienna Rose e até que ponto ela é real
Agora, o que você acha de Sienna Rose, o estudo de caso central deste artigo? O que a torna relevante? À primeira vista, a trajetória da cantora não parece drasticamente diferente da do The Velvet Sundown. Ela também lançou um volume excepcionalmente alto de músicas em um curto período: 3 EPs e 1 álbum, 36 faixas no total, a maioria disponibilizada entre setembro e dezembro de 2025.
Sua primeira aparição nas redes sociais foi há duas semanas, ela nunca se apresentou ao vivo, nem fez upload de covers no YouTube e, como confirmado pela ferramenta de detecção da Deezer, muitas de suas músicas na plataforma foram anteriormente identificadas como geradas por computador e trazem o mesmo assobio revelador. Também há inconsistências em sua aparência em fotos e nas capas dos lançamentos nas plataformas de streaming.
Onde Sienna Rose realmente se destaca de outros artistas gerados por IA é em seu conteúdo nas redes sociais. Seus feeds do Instagram e do TikTok são preenchidos principalmente com vídeos dela posando, movendo-se na frente da câmera e abrindo a boca em sincronia com sua música. Seu perfil também inclui um vídeo aparentemente acústico, fotos supostamente de quando era criança e, talvez o mais impressionante, um vídeo em que ela aborda diretamente as alegações de que ela não existe, dizendo sem rodeios: "Eu me sinto real".
Antes do lançamento deste artigo, o vídeo original foi removido da conta de Sienna no IG, mas abaixo você pode ver o vídeo republicado pelo Newsroom ZA.
@newsroomza A cantora viral Sienna Rose estourou rapidamente, com 3,4 milhões de ouvintes mensais no Spotify e duas músicas na lista Global Viral 50. Mas o hype vem acompanhado de uma grande pergunta: ela é real ou é uma IA? O Deezer sinalizou que muitas de suas faixas são geradas por computador, e os fãs apontam para peculiaridades de áudio e um lançamento excepcionalmente grande. Uma conta do TikTok reivindicando ser Sienna apareceu insistindo que ela é real, e o mistério só está aumentando. Vídeo: siennarosely | TikTok #siennrosely #news #ai #southafrica ♬ som original - Newsroom ZA
Essencialmente, o que diferencia Sienna Rose de outras cantoras de IA que vimos até agora é a sofisticação das plataformas de IA por trás da persona e, talvez, a ousadia de quem as opera. Em apenas seis meses, passamos de visuais claramente sintéticos à vídeos que parecem mais reais do que nunca. Eles retratam alguém que, para um espectador não muito atento, parece (ou melhor, finge) se comportar como uma pessoa real.
Ainda assim, os vídeos de Sienna têm limitações e inconsistências, visíveis principalmente nos detalhes. Em alguns momentos, os movimentos do corpo parecem artificiais: a boca se abre sem articular corretamente a letra da música e elementos de fundo mudam de forma imprevisível, como neste vídeo (repare no quadro na parede).
Por vezes, os elementos visuais não fazem sentido algum, como a escrita no vestido que Sienna usa neste vídeo:
Quanto mais você assistir a esses vídeos, mais notará sinais de que não há nada de real na pessoa que você está assistindo. Ainda assim, a criação de Sienna Rose, se confirmada, poderia ser um dos melhores trabalhos de criação de persona com IA feitos até agora.
Estamos diante de um caso de verdade ilusória?
Vale notar também que, embora a maioria das pessoas online concorde que Sienna Rose é gerada por IA, seu perfil no Instagram continua reforçando a narrativa de que existe uma pessoa real por trás do projeto. Novos conteúdos seguem sendo publicados, com legendas como “mal posso esperar para cantar isso ao vivo” ou “a sensação de talvez sair em turnê em 2026”. Alguns usuários também apontaram que comentários sugerindo que ela é gerada por IA parecem ter sido apagados de forma deliberada.
A longo prazo, esse tipo de narrativa sustentada pode se tornar confusa, muitas vezes sem que as pessoas percebam isso conscientemente. Alguns podem argumentar que esse é um exemplo moderno e fascinante de realidade fabricada e pode até se assemelhar a um fenômeno psicológico conhecido como Efeito da Verdade Ilusória. Esse fenômeno descreve um viés cognitivo em que as pessoas passam a acreditar que as informações são mais verdadeiras, independentemente de sua precisão real ou de sua convicção inicial, simplesmente porque foram expostas a elas repetidamente.
Esse efeito pode se tornar ainda mais pronunciado se as ferramentas de IA continuarem a melhorar, com menos falhas e inconsistências óbvias no conteúdo produzido. À medida que as postagens e os recursos visuais se tornarem mais refinados, a exposição repetida poderá ser suficiente para diminuir a desconfiança ao longo do tempo.
O caso de Sienna Rose pode servir como um forte exemplo de como os interesses, geralmente comerciais, aproveitam os vieses psicológicos para superar o chamado "Uncanny Valley" (Vale da Estranheza). De modo geral, aqueles que usam esses mecanismos não estão tentando convencer o raciocínio lógico de imediato, mas corroer gradualmente o ceticismo por meio da repetição.
As implicações dos artistas de IA
Sejam fascinantes ou perturbadoras, as perguntas sobre a autenticidade de Sienna Rose reacenderam na indústria musical o debate sobre o impacto da inteligência artificial sobre artistas genuínos e a credibilidade das músicas lançadas. Se há algo de que podemos ter certeza no caso de Sienna, é que está cada vez mais difícil distinguir o que é real do que não é. Isso é preocupante por vários motivos.
Embora a atitude predominante em relação à música gerada por IA seja de rejeição, tanto entre artistas quanto entre o público, essa reação perde força quando o ouvinte não percebe que está consumindo algo artificial.
Quanto mais engajamento esses artistas acumulam, maior a chance de acionar os algoritmos de recomendação das redes sociais e das plataformas de streaming. Mesmo execuções fraudulentos não detectados podem influenciar e distorcer essas sugestões algorítmicas. Embora seja provável que a atividade inicial em torno da música de Sienna (execuções, compartilhamentos e salvamentos) tenha sido impulsionada por bots, esse engajamento ainda assim foi captado pelos algoritmos e passou a ser recomendado a ouvintes reais. Um alto volume de execuções, sobretudo quando há um crescimento rápido, pode levar uma música à viralização. Isso cria um ciclo em que ouvintes, muitas vezes sem perceber, acabam endossando a existência de um artista que, na prática, não existe. Mesmo semanas após o caso vir a público, alguns fãs e até artistas continuam curtindo, comentando e compartilhando publicações de Sienna no Instagram.
Esse fenômeno está diretamente ligado à geração de receita. Toda execução gera royalties, a menos que seja sinalizada e removida pela plataforma. Como resultado, esses "artistas" de IA que acumulam milhares ou até milhões de reproduções podem gerar uma receita significativa. No final de 2025, a empresa de venda de ingressos Seat Pick pesquisou e listou os "artistas" de IA com os maiores ganhos no Spotify.
No topo da lista está o Blow Records, que não um selo, mas um "artista" de IA. Ele que acumulou mais de 45 milhões de reproduções em 2025, o que rendeu £123.176,09 ao seu criador. Em segundo lugar está a Biscuit Beats, que ganhou £ 67.891,16 com quase 25 milhões de execuções, seguida por Xania Monet, que gerou £ 50.021 somente do Spotify e, segundo consta, assinou um contrato de US$ 3 milhões com a Hallwood Media. O The Velvet Sundown ficou em quinto lugar na lista.
Como o Music Radar observou, todos os "artistas" incluídos na classificação ganharam mais com execuções do que a média dos músicos que trabalham no Reino Unido, sendo que somente o Blow Records gerou quase quatro vezes o salário médio do Reino Unido em royalties do Spotify.
A concorrência entre IA e artistas humanos
O fato de que a música gerada por IA está sendo promovida por algoritmos de plataformas e monetizada da mesma forma que a música de artistas humanos levantou uma preocupação especial sobre a redução do espaço e da receita de artistas genuínos. Alguns sugerem que essas questões interconectadas apontam para lacunas persistentes na capacidade dos serviços de streaming de detectar e bloquear de forma confiável o conteúdo gerado por IA, muitas vezes chamado de AI-slop.
Sienna Rose é o exemplo do momento desse problema. Várias faixas atribuídas a ela entraram na playlist Viral 50-USA do Spotify, apesar das fortes evidências de que o projeto é totalmente gerado por IA.
O compositor inglês Michael Price chamou Rose de "um dos exemplos mais impressionantes de pessoas que ouvem música todos os dias e que confiam que o que está sendo curado pelos serviços de streaming é feito por músicos reais". Glenn McDonald, ex-engenheiro de dados do Spotify, observou que Rose "representa muito mais do que mais um artista de IA", precisamente porque ela está "sendo promovida no mesmo espaço que a música real".
Talvez uma possível solução esteja na tecnologia de detecção de IA da Deezer, atualmente a única utilizada por uma grande plataforma de streaming. De acordo com a Deezer, o sistema desmonetizou 85% de todas as execuções de música gerada por IA na plataforma. Diante desses números, a ferramenta agora está sendo oferecida para licença a outros serviços de transmissão.
Deepfakes, a próxima fronteira
A controvérsia em torno de Sienna Rose pode ir além das preocupações com visibilidade e desvio de receita de artistas genuínos. Nos últimos dias, diversos perfis no TikTok alegaram que alguns dos vídeos da “cantora” teriam sido criados a partir de imagens de pessoas reais capturadas da, incluindo seus movimentos corporais e os ambientes ao redor, sobre os quais a IA teria sobreposto uma persona sintética. Um desses exemplos pode ser visto no vídeo abaixo:
@4certified_2_yapper0 COM A AJUDA DOS COMENTÁRIOS, ENCONTREI A SENHORA ORIGINAL @e111e O PERSONAGEM DE IA DA SIENNA ROSE ESTÁ ROUBANDO VÍDEOS DE #fyp #siennarose #fypシ #tendências #viral ♬ som original - Certifiedyapper
Um usuário também observou que a identidade da persona evoluiu ao longo do tempo, passando de uma compositora caucasiana de cabelos ruivos para a cantora negra que vemos online atualmente.
@christianamillermusic Respondendo a @118h 48m #telaverde é mais sinistro do que poderíamos imaginar. #Você está se sentindo muito bem com o que está acontecendo com você? ♬ House featuring John Cale - Charli xcx & John Cale
Caso essas alegações sejam confirmadas, os vídeos da conta de Sienna poderiam ser classificados como uma forma de deepfake, possivelmente dentro de uma categoria ainda mais específica, conhecida como body puppetry (animação corporal sintética) ou full-body reenactment (recriação corporal integral). Essa técnica é considerada uma das mais complexas entre os deepfakes, pois exige que a IA reconstrua de forma convincente o ambiente ao redor do novo personagem, ao mesmo tempo em que reproduz com precisão os gestos e movimentos de uma pessoa real.
Em muitos países, incluídos os EUA e os da UE, o uso de tecnologias de deepfake está sujeito a requisitos de transparência e escrutínio legal. Por exemplo, de acordo com a Lei de IA da UE (2024), qualquer pessoa que use IA para produzir deepfakes deve declarar claramente que o conteúdo foi alterado artificialmente.
Além da transparência, também podem surgir questões de propriedade de imagem quando filmagens existentes são reutilizadas, especialmente sem autorização. Em geral, quem cria um vídeo detém os direitos sobre a gravação original, incluindo o cenário, as performances registradas e o próprio material audiovisual. O uso desse tipo de conteúdo sem permissão pode gerar problemas relacionados a direitos autorais.
Considerações finais
Sienna Rose pode ser um exemplo sem precedentes do que acontece quando a tecnologia cria algo artificial que parece real demais. O caso evidencia uma tendência que, se não for tratada com cuidado, pode ter efeitos negativos sobre o ecossistema da música, especialmente para artistas genuínos e ouvintes que valorizam música feita por pessoas.
Ao mesmo tempo, o caso pode ser visto como uma oportunidade de analisar com mais atenção as ferramentas e os mecanismos de proteção e apoio à arte feita por pessoas, avaliar se eles são suficientes e, se não forem, começar a desenvolver novos instrumentos.
Ferramentas como o sistema de detecção de IA da Deezer, especialmente quando adotadas de forma ampla pelas plataformas de streaming, podem se tornar uma maneira eficiente de combater execuções fraudulentas e projetos criados por IA. Não é sobre remover a IA da música por completo, afinal, ela pode ser uma ferramenta valiosa para ajudar artistas genuínos a se expressarem de maneira inovadora. A questão é como proteger esses artistas e garantir que, quando eles criarem algo, possam ser apreciados e recompensados de forma justa por seu trabalho.
Martina é uma jornalista musical e especialista em conteúdo digital, baseada em Berlim. Começou a tocar violino aos seis anos e passou uma década imersa na música clássica. Hoje, escreve sobre tudo relacionado à música, com interesse especial pelas complexidades da indústria musical e das plataformas de streaming, e em formas de promover uma remuneração justa para os artistas.