Round Hill processa Suno e Anthropic (e não quer acordo)
- Martina
- 24 agosto 2026, segunda-feira
Suno e Anthropic se complicam cada vez mais quando o assunto é direitos autorais e inteligência artificial. A Round Hill Music, editora musical independente bastante influente nos Estados Unidos, entrou com ações por violação de direitos autorais contra as duas empresas, deixando claro que não pretende fazer acordo em nenhum dos dois casos.
Round Hill processa a Suno e Anthropic
Como revelou a Reuters, as ações judiciais foram protocoladas em 17 de agosto e envolvem seis autores, incluindo a Round Hill Music LP e cinco fundos e holdings afiliados a ela. Juntos, eles são donos ou controlam, integral ou parcialmente, 14.364 composições musicais e 16.873 gravações fonográficas.
A Round Hill Music alega que a Suno e a Anthropic cometeram violações de direitos autorais nos termos do Copyright Act. A editora afirma que a Suno alimentou seu gerador de música por inteligência artificial com as gravações, e a Anthropic treinou o chatbot Claude com as letras. As ações também alegam que as empresas burlaram controles de acesso e removeram informações de gestão de direitos autorais, o que infringe o Digital Millennium Copyright Act (DMCA).
A ação contra a Suno também cita a Bright Data Ltd. e a Bright Data Inc. como réus. A Round Hill alega que as duas empresas forneceram as ferramentas que a Suno usou para extrair arquivos de música de plataformas digitais, e que essas ferramentas ajudaram a evitar os controles de acesso e a remover informações de gerenciamento de direitos autorais.
Cada ação inclui um anexo com 500 composições, descrito como uma "causa piloto prioritária". Causa piloto é um processo representativo que ajuda a definir como demandas semelhantes serão tratadas. Entre as obras estão Iris, do Goo Goo Dolls, I Got You (I Feel Good), de James Brown, e Total Eclipse of the Heart, composta por Jim Steinman e interpretada por Bonnie Tyler.
Segundo as informações, cada ação reivindica uma indenização de até US$ 150 mil por obra "violada de forma deliberada", teto fixado pela lei dos Estados Unidos. Se a Round Hill conseguir comprovar a violação em todas as obras incluídas nos processos, a indenização de cada ação pode chegar a "centenas de milhões de dólares, com potencial para se aproximar ou até ultrapassar US$ 1 bilhão".
E, segundo a Round Hill, essas 500 obras são apenas o começo. A empresa afirma que pretende ampliar as duas ações para incluir "potencialmente mais de dez mil composições".
“Não somos contra a inteligência artificial. Somos contra a ideia de construir um negócio que vale bilhões com base no trabalho criativo de outras pessoas e não pagar nada a elas”, afirmou Josh Gruss, fundador e CEO da Round Hill Music.
“O licenciamento não é um obstáculo à inovação, ele existe para proteger os donos legítimos da matéria-prima, a propriedade deles. Como gravadora independente, temos a liberdade e a obrigação de dizer isso com todas as letras e tomar as atitudes cabíveis."
Sem chance de acordo
Os processos judiciais não são novidade nem para a Suno nem para a Anthropic.
A Suno foi processada pela primeira vez pelas grandes gravadoras em junho de 2024. A Warner Music Group, posteriormente chegou a um acordo com o gerador de música por IA e assinou um contrato de licenciamento, mas a Universal Music Group (UMG) e a Sony Music continuam envolvidas em litígios ativos. A Suno também enfrenta um outro processo movido pela sociedade de gestão de direitos autorais da Dinamarca, a Koda. Além disso, no final de julho de 2026, o Tribunal Regional de Munique decidiu contra a empresa em uma ação movida pela sociedade de gestão colectiva alemã GEMA. A Suno avalia se vai recorrer da decisão. Recentemente, a Suno fechou um contrato de licenciamento com a BMG, mais uma importante detentora de direitos a optar por um acordo em vez de seguir com o litígio.
A Anthropic também tem enfrentado sua cota de disputas judiciais. A empresa chegou a um acordo em um dos principais processos de direitos autorais contra ela em setembro de 2025, concordando em pagar US$ 1,5 bilhão a um grupo de autores para resolver uma ação coletiva. Atualmente, ela enfrenta três ações judiciais movidas por detentores de direitos musicais. O processo movido por Concord, UMPG e ABKCO envolve, segundo relatos, mais de 20 mil músicas, com os autores da ação exigindo bilhões de dólares em indenização. A BMG, por sua vez, processou a Anthropic separadamente por centenas de composições.
O que diferencia a Round Hill Music dos outros autores é a recusa antecipada a qualquer acordo com a Suno ou a Anthropic. Para sustentar essa posição, a editora fez questão de escolher advogados especializados em litígios.
“Temos o privilégio de atuar como guardiões de algumas das maiores obras musicais da nossa época e respondemos perante os compositores e artistas que as criaram”, enfatizou Gruss.
“Pretendemos levar esses casos a julgamento e responsabilizar essas empresas. Não aceitaremos uma resolução que prive compositores e artistas da parte que lhes é de direito na remuneração.”
Conforme noticiado pelo site britânico Music Business WorldWide, a Round Hill nomeou Richard S. Busch, advogado conhecido por seu trabalho nos tribunais, para representá-la em ambos os processos. Busch representou a família de Marvin Gaye no caso de direitos autorais da música “Blurred Lines”.
O próprio Busch deixa clara a posição da Round Hill. “A questão nesses casos não é complicada. Obras protegidas por direitos autorais foram usadas para construir negócios de bilhões de dólares, no caso da Anthropic, uma empresa hoje avaliada em mais de um trilhão de dólares. Enquanto isso, os compositores e editoras que criaram as bases desse valor não receberam nada”, disse ele.
"Esse uso não tem nada de justo, e estamos ansiosos para apresentar nossos argumentos no tribunal, diante de um júri", acrescentou Busch.
A Round Hill vem adotando uma abordagem bem diferente daquela escolhida pelos detentores de direitos que buscaram acordos de licenciamento ou fizeram acordos judiciais. Ainda não se sabe se essa posição vai levar a um julgamento, a um precedente legal ou a um eventual acordo. Mas, até agora, a Round Hill não está interessada em aceitar um valor e dar o caso por encerrado.
Martina é uma jornalista musical e especialista em conteúdo digital, baseada em Berlim. Começou a tocar violino aos seis anos e passou uma década imersa na música clássica. Hoje, escreve sobre tudo relacionado à música, com interesse especial pelas complexidades da indústria musical e das plataformas de streaming, e em formas de promover uma remuneração justa para os artistas.