Opinião: os festivais de música vão continuar perdendo força em 2026?
- Martina
- 23 janeiro 2026, sexta-feira
Há poucos dias, a imprensa noticiou que o AiaSound, festival de música eletrônica sediado em Copenhague, vai encerrar suas atividades. O anúncio volta a chamar atenção para uma tendência preocupante que vem se intensificando nos últimos anos: o cancelamento de grandes festivais de música.
Essa tendência continuará em 2026, tornando o AiaSound o primeiro de muitos festivais cancelados neste ano? É isso que discutiremos a seguir.
O declínio dos festivais de música: uma triste tendência provocada pela pandemia
Quando o COVID-19 atingiu o mundo, quase tudo parou. E o segmento de música ao vivo, baseado na conexão humana e na participação presencial, foi um dos mais afetados. Em 2026, enquanto muitos setores já se recuperaram por completo ou até superaram os níveis anteriores a pandemia de 2019, a música ao vivo ainda enfrenta desafios.
A disparada dos custos de produção, a inflação que limita os gastos do consumidor e a queda nas vendas de ingressos estão entre os principais fatores de pressão sobre os festivais. A esse cenário se somam as dívidas acumuladas no pós-pandemia e uma possível mudança nos hábitos das gerações mais jovens, que tendem a se afastar de festas com consumo excessivo de álcool.
No Reino Unido, por exemplo, as implicações foram profundas. De acordo com a AIF (Associação de Festivais Independentes), um em cada seis festivais foi cancelado durante e após a pandemia da COVID-19. O número de festivais de música no país caiu de 600 em 2019 para 482 em 2023.
Essa queda de 19,7% inclui festivais suspensos durante a pandemia e que não voltaram, além de eventos que tentaram retornar em 2022, mas fracassaram naquele ano ou não conseguiram se manter até a temporada de 2023. Só em 2024, outros 60 festivais no Reino Unido encerraram as atividades. Os cancelamentos em massa seguiram em 2025. Estima-se que mais de 100 festivais em todo o mundo tenham saído definitivamente do calendário, a maioria nos Estados Unidos e no Reino Unido. Em outros mercados europeus, o impacto também foi forte: só na Holanda, 50 festivais foram cancelados no ano passado.
Houve avanços claros desde a quarentena global causada pela pandemia. Ainda assim, a recuperação da música ao vivo não aconteceu de maneira uniforme. O setor vive hoje um paradoxo: sinais de crescimento convivem com dificuldades persistentes.
Turnês individuais em vez de festivais
Com mais de 140 shows realizados em mais de 50 cidades entre março de 2023 e dezembro de 2024, a Eras Tour de Taylor Swift deu início ao que agora é descrito como a era de ouro das megatours. As grandes turnês de artistas globais como Swift, Coldplay, Beyoncé, Billie Eilish, Katy Perry, Bad Bunny e muitos outros geraram receitas tão espetaculares que se tornaram a principal fonte de renda do setor.
Esse movimento, porém, tem cobrado um preço alto, sobretudo de artistas independentes, festivais e espaços menores. O resultado é um mercado cada vez mais polarizado: grandes nomes prosperam com ingressos caros, enquanto cenas menores e comunidades de nicho enfrentam cancelamentos e dificuldades financeiras.
Os festivais (pequenos e grandes) vêm sofrendo uma queda desde a pandemia (e sim, isso foi, até certo ponto, desencadeado pelas megatours). Apesar da crise global e da instabilidade econômica, as pessoas ainda querem ver música ao vivo, mesmo que os preços dos ingressos tenham disparado. Ao mesmo tempo, devido à crise financeira, o público não pode mais se dar ao luxo de assistir a shows de turnê e ir a um festival no mesmo ano; muitas vezes é preciso escolher. E muitos dão preferência às turnês.
"Em 2024, você gasta tudo em um ingresso para ver a Taylor Swift e, simplesmente, deixa o festival de lado", afirmou Will Page, ex-economista-chefe do Spotify, em entrevista à CNN. “Estamos vendo um efeito de deslocamento, de canibalização, com as grandes turnês tomando o espaço dos festivais."
Para a maioria dos frequentadores dos concertos, o raciocínio é bastante simples: assistir a um show de seu artista favorito é muito mais seguro e, em geral, menos dispendioso do que pagar centenas de dólares por um festival com artistas que talvez você nem goste. Sem falar dos gastos com transporte, hospedagem e alimentação. Para eles, os festivais simplesmente não valem a pena.
Organizar festivais está mais difícil do que nunca
Os festivais enfrentam hoje um cenário mais imprevisível e complexo, tanto para o público quanto para quem os organiza. Diferentemente das turnês, os produtores de festivais dependem de vários artistas e precisam oferecer condições que tornem a data atrativa. Com a mudança nas estruturas de preço dos ingressos, as turnês próprias ficaram mais lucrativas para artistas de primeiro escalão, o que torna mais difícil para os festivais garantir esses nomes desde o início.
Além do aumento no cachê dos artistas, os custos operacionais também subiram em todas as áreas, como cadeia de suprimentos, pessoal, tecnologia, logística e energia. Isso reduz a capacidade dos organizadores de produzir eventos financeiramente viáveis. Algumas fontes sugerem que somente os custos gerais de produção aumentaram cerca de 40%, algumas despesas até mais. "Tivemos um aumento extremo nos custos, chegando a até 250% em algumas áreas", disse Lara Wassermann, porta-voz do festival de dança alemão Back To The Roots, em 2024.
O aumento geral dos custos dos festivais acabou refletido no preço dos ingressos, o que ajuda a explicar por que muitos fãs passaram a optar por outros eventos ao vivo. Ainda assim, esses reajustes muitas vezes não cobrem todos os custos. Afinal, há um limite para quanto um festival pode cobrar sem se tornar pouco atrativo para o público.
Em 2024, Suzanne Porter, organizadora da edição neozelandesa do tradicional WOMAD, resumiu bem o problema: “Saímos do período pós-COVID com custos mais de 30% maiores: transporte, cachês, tudo ficou mais caro. Ao mesmo tempo, o público enfrenta uma crise no custo de vida, então você tenta segurar o preço do ingresso. Nós não aumentamos o valor dos ingressos em nenhuma das três edições, o que acabou criando uma situação insustentável”. Diante dessas dificuldades financeiras, o festival será um entre muitos a fazer uma pausa programada em 2026, com a expectativa de retornar em 2027
Vale lembrar que não são apenas os custos gerais que pesam sobre os organizadores, mas também os adiantamentos elevados, pagos muito antes de o festival acontecer. "Qualquer cachê acima de alguns milhares de libras exige um adiantamento de 50%. E, no caso dos valores mais altos, muitas vezes é preciso pagar 100% antes mesmo do show, o que gera uma pressão enorme", explicou Ross Parkhill, diretor do Stendhal Festival, na Irlanda do Norte.
Além de tudo isso, os festivais ainda precisam lidar com condições climáticas severas e cada vez mais imprevisíveis, como tempestades, chuvas intensas e ondas de calor extremo. Para cobrir esses riscos, entram seguros caros, que podem chegar a centenas de milhares de dólares e incluem desde a cobertura do local e da responsabilidade civil até o possível cancelamento do evento. Ainda assim, o clima foge ao controle dos organizadores, acrescentando mais uma camada de risco financeiro tanto para quem produz quanto para quem participa.
Por exemplo, em 2024, o Pohoda, maior festival da Eslováquia, teve que ser cancelado prematuramente depois que uma forte tempestade derrubou uma das tendas principais do evento e feriu 29 pessoas. Da mesma forma, em 2025, o Bonnaroo Music and Arts Festival, no Tennessee, foi forçado a terminar mais cedo devido às previsões de chuva forte e prolongada, que teria piorado as condições de acampamento e saída.
Com o mercado de festivais saturado, os fãs buscam experiências singulares
Mesmo os fãs mais fiéis de festivais de música já não conseguem ir a tudo. E na hora de escolher, o público tem priorizado eventos grandes e consolidados, o que deixa pouco espaço para eventos menores e multigênero, que correm o risco de desaparecer de vez.
Ao mesmo tempo, há muitos festivais com propostas semelhantes, o que acaba saturando o mercado e resultando em lineups repetitivos, dominados sempre pelos mesmos grandes headliners, com pouco espaço para novidade ou surpresa. Segundo Tiffany Naiman, diretora dos Programas da Indústria Musical na Universidade da California, esse cenário aparece sobretudo entre os grandes festivais, que mudaram pouco ao longo dos anos.
"Os grandes festivais chegaram a um ponto de estagnação porque pouco mudaram para melhor. Hoje, não vejo nada de realmente único ou ousado no Coachella”, afirmou Tiffany Naiman à CNN. Talvez por isso, muitos festivais de grande porte, como o próprio Coachella e o Burning Man, não tenham conseguido esgotar os ingressos na abertura das vendas em 2024 e 2025. No caso do Burning Man, foi a primeira vez em mais de uma década. Além disso, o Coachella, considerado o festival de música anual mais concorrido da América do Norte, registrou uma queda de 15% nas vendas de ingressos em 2024.
Festivais de nicho, conhecidos como sui generis, tendem a estar em uma posição mais favorável. Eventos com foco em gêneros específicos e com identidades claras também têm mais chances de prosperar, já que falam diretamente com bases de fãs engajadas. No entanto, mesmo dentro dessas categorias, tamanho, fatores externos e restrições financeiras seguem determinando quais festivais conseguem sobreviver.
A geração Z tem menos interesse em festivais
Além desses fatores, os padrões de comportamento da geração Z podem estar afetando a demanda por festivais de música e eventos de entretenimento ao vivo. Historicamente, o principal público-alvo dos festivais tem sido adolescentes e jovens na faixa dos 20 anos, que geralmente estão mais inclinados a gastar tempo e dinheiro em experiências do que com bens de consumo.
Ainda assim, muitos apontam que há diferenças importantes entre os millennials e a geração Z. Os millennials foram o principal foco dos organizadores durante o boom dos festivais entre 2010 e 2020; hoje, essa atenção se volta para a geração Z.
Pesquisas apontam mudanças comportamentais relevantes na geração Z, incluindo menor consumo de álcool e drogas e maior sensação de solidão. O aumento do tempo gasto nas redes sociais e no celular é frequentemente associado a esse isolamento. Somados aos efeitos prolongados das quarentenas, esses fatores ajudam a explicar por que a geração Z tende a participar menos de atividades altamente sociais, como festivais, do que gerações anteriores.
Dados da Australian Associated Press mostram essa mudança. O percentual de jovens adultos entre os compradores de ingressos caiu de 41% em 2018–2019 para 27% em 2022–2023. Hoje, quem mais compra ingressos para eventos ao vivo na Austrália tem entre 25 e 29 anos.
Festivais de música de 2026: o que podemos esperar?
1. Mais festivais cancelados ou adiados
Os primeiros sinais indicam que o AiaSound Festival não será o único a deixar de acontecer em 2026. Outros eventos internacionais já anunciaram pausas, em princípio temporárias. Em alguns casos, a decisão busca ganhar tempo para planejar a sustentabilidade no longo prazo; em outros, responde a dificuldades financeiras em meio ao aumento contínuo dos custos de produção, que devem crescer ainda mais em 2026. Entre os festivais cancelados e pausados estão:
Desert Hearts Music Festival, Arizona, EUA - O festival de música eletrônica está fazendo uma pausa após 13 anos para "reiniciar, reorientar e reconstruir".
Hangout Music Festival, Alabama, EUA - O festival multigênero, realizado à beira-mar, também não acontecerá em 2026, após já ter ficado fora do calendário em 2025. A organização planeja o retorno em 2027, com foco em uma curadoria artística mais bem ajustada e em uma experiência de público aprimorada.
Live at Leeds, Leeds, Reino Unido - O festival está fazendo uma pausa para evoluir e voltar em grande estilo em 2027 para seu 20º aniversário.
Splore, Orere Point, Nova Zelândia - O festival boutique de música e artes, com duração de três dias, anunciou que 2026 será seu último ano, pondo fim a quase 20 anos de existência. "Está cada vez mais difícil manter um festival com a qualidade e a profundidade do Splore, portanto, em vez de diluí-lo, prefiro que ele termine com um estrondo", declarou John Minty, curador do Splore.
We Are One Festival, Cardiff, Reino Unido - Previsto para estrear em janeiro de 2026, o festival galês de rock alternativo foi cancelado em dezembro de 2025, após a retirada de um investimento.
One Love Festival, Tauranga, Nova Zelândia - O amado festival de reggae foi cancelado em 2026 devido a desafios econômicos.
2. Diferenciação como elemento-chave para os festivais
A demanda por música ao vivo segue existindo, mas o público está mais seletivo. Em um cenário de pressão financeira, ganham espaço os eventos que oferecem experiências memoráveis e propostas claramente diferenciadas.
Por isso, especialmente para festivais pequenos e multigênero, é fundamental ir além da música e apostar na diferenciação para competir com outros eventos e seguir relevante em um mercado cada vez mais saturado.
Por exemplo, a sustentabilidade e a responsabilidade ambiental se tornaram fatores importantes para os fãs de música ao escolherem um festival ou evento ao vivo para participar. O público, especialmente o mais jovem, vem se tornando mais consciente em relação ao meio ambiente e procura ativamente entidades e espaços que correspondam a seus valores. Para eles, as práticas de sustentabilidade, como uso de energia renovável, a implementação de políticas de desperdício zero, a instalação de estações de recarga de água, a parceria com organizações ambientais, a promoção de dietas vegetarianas e veganas e o suporte a marcas locais se tornaram o novo padrão. Portanto, um programa de sustentabilidade bem promovido (que seja genuíno, não apenas simbólico) pode servir como um argumento atraente, impulsionando as vendas de ingressos e aumentando a fidelidade.
A inovação tecnológica pode ser uma aliada importante para a diferenciação dos festivais. Sem substituir a experiência presencial, a incorporação de elementos digitais, como IA, VR, instalações interativas ou live streaming, amplia a proposta do evento, atrai novos públicos, cria fluxos adicionais de receita e melhora a acessibilidade.
É difícil discutir a diferenciação sem mencionar a personalização. Os avanços em análise de dados e inteligência artificial permitem que os organizadores de festivais obtenham informações valiosas sobre preferências, comportamento e hábitos de consumo dos fãs. O acesso a esses dados permite criar experiências personalizadas e formatos de show mais ajustados ao público, de maneira semelhante ao que fazem os algoritmos das redes sociais e plataformas de streaming para oferecer recomendações (a discussão ética sobre o uso de dados é outro assunto). Roteiros personalizados dentro do festival, pacotes de acesso exclusivo e interações diretas com os artistas ajudam a aprofundar o engajamento e podem justificar ingressos com preços mais altos.
3. Festivais consolidados devem seguir atraindo grandes públicos
Apesar dos desafios enfrentados por muitos festivais, grandes eventos como Lollapalooza (Chicago), Primavera Sound, Coachella e Rock im Park (assim como o Rock am Ring) devem seguir com lineups robustos e manter a capacidade de atrair grandes públicos.
Isso reforça uma tendência clara entre o público de festivais: a preferência por eventos com grandes atrações, forte apelo experiencial e reputação internacional.
O resultado é um mercado cada vez mais polarizado, no qual festivais de grande porte se saem melhor do que os de menor escala, impulsionados por artistas globais, marcas consolidadas e, muitas vezes, maior acesso a patrocínio e capital.
Festivais de música: o que as tendências atuais significam para artistas independentes
Para artistas independentes, as transformações no mercado global de festivais não significam, necessariamente, menos oportunidades de shows ao vivo. Elas indicam uma mudança de lógica. Em um cenário mais seletivo, conservador e financeiramente limitado, os festivais deixaram de ocupar o papel central no crescimento dos artistas, como acontecia há uma década, e ainda mais antes da pandemia.
No momento, as transformações no setor parecem atingir principalmente festivais pequenos e médios, em especial os multigênero. Com o cancelamento de eventos ou a redução de vagas para novos artistas, diminui o acesso a experiências de palco e aumenta a competição entre músicos por um número cada vez menor de espaços.
Ao mesmo tempo, as decisões de contratação estão cada vez mais orientadas por dados. Os produtores tendem a priorizar artistas que conseguem comprovar engajamento real do público, capacidade de gerar vendas ou uma base regional consistente. Ou seja, construir uma base de fãs visível e engajada, tanto online quanto fora das redes, se tornou mais importante do que nunca.
Artistas independentes, especialmente aqueles com identidades bem definidas e bases de fãs fiéis, também podem encontrar oportunidades em eventos de nicho, festivais de gênero específico e formatos com foco na experiência, que respondem à busca do público por propostas mais singulares. Festivais boutique, showcases com curadoria, eventos de selo e experiências híbridas ao vivo tendem a gerar uma exposição mais relevante do que os festivais tradicionais com múltiplos palcos, nos quais músicos em início de carreira dificilmente se destacam.
Nesse contexto, diversificar é fundamental. Para artistas independentes, vale ir além dos festivais e optar por shows próprios menores, aberturas, apresentações pontuais e formatos alternativos, usando os festivais de forma estratégica. As apresentações ao vivo continua sendo essenciais, mas elas, hoje, funcionam melhor dentro de uma abordagem mais flexível.
Embora a perspectiva seja de que o mercado de festivais de música se retraia e se polarize ainda mais em 2026, isso favorece quem tem personalidade, capacidade de adaptação e um trabalho de comunidade consistente. Para artistas independentes, ganhar espaço nos palcos dos festivais passa menos por estar em todos os lugares e mais por estar nos lugares certos, onde a música e o público se encontram de forma genuína.
Quer saber mais previsões para este ano? Confira nosso artigo sobre as tendências da indústria musical para 2026.
Martina é uma jornalista musical e especialista em conteúdo digital, baseada em Berlim. Começou a tocar violino aos seis anos e passou uma década imersa na música clássica. Hoje, escreve sobre tudo relacionado à música, com interesse especial pelas complexidades da indústria musical e das plataformas de streaming, e em formas de promover uma remuneração justa para os artistas.